Contratação de potência no sistema elétrico

O primeiro leilão de reserva de capacidade de 2026 resultou na contratação de 19 gigawatts de potência no sistema elétrico brasileiro. O certame contou com 100 projetos vencedores e deve mobilizar investimentos estimados em aproximadamente R$ 64 bilhões. A maior parte da potência contratada foi proveniente de usinas termelétricas, que representaram cerca de 86 por cento do total contratado.

A contratação realizada no leilão segue a necessidade de expansão apontada pela Empresa de Pesquisa Energética no Plano Decenal de Expansão de Energia 2035. O volume contratado equivale a quase 10 por cento da capacidade atual de geração do Sistema Interligado Nacional.

Entre os projetos vencedores, a maior parte corresponde a novas usinas termelétricas, com destaque para empreendimentos movidos a gás natural. Também foram contratados projetos utilizando biometano e carvão. 

Baixa competição no certame

O leilão apresentou deságio de 5,52 por cento em relação ao preço teto estabelecido. O resultado foi interpretado por parte do setor como sinal de baixa competição entre os projetos participantes, apesar de mais de 120 gigawatts de projetos terem sido cadastrados para disputar o certame.

Especialistas apontam que muitos empreendimentos cadastrados correspondiam ao mesmo projeto em diferentes anos de entrega, o que pode ter reduzido a efetiva competição.

Ainda assim, a contratação ficou próxima das expectativas de parte do mercado, embora existam questionamentos sobre a necessidade de contratar todo o volume já nesta etapa do processo.

Impacto estimado nas tarifas

O preço médio da potência contratada foi de R$ 2.334.731 por megawatt por ano. A Associação Brasileira dos Grandes Consumidores de Energia e Consumidores Livres estima que o resultado do leilão pode gerar impacto de aproximadamente R$ 40 bilhões por ano, com possível aumento de cerca de 10 por cento nas tarifas.

O governo contesta essa estimativa. Segundo o Ministério de Minas e Energia, a substituição de usinas termelétricas antigas por contratos mais flexíveis pode resultar em redução de até 24 por cento no custo das tarifas no longo prazo.

De acordo com o secretário executivo do ministério, Gustavo Ataíde, o preço final reflete o cenário atual do mercado internacional, marcado por pressões geopolíticas e dificuldades logísticas na cadeia de suprimentos de equipamentos.

Participação das empresas

Entre as empresas com maior participação no leilão estão Petrobras, Eneva e J&F, responsáveis por mais da metade da potência contratada a gás natural.

Alguns destaques do resultado incluem:

• Mais de 5 GW contratados pela Eneva
• 2,2 GW contratados pela Petrobras, com receita fixa anual estimada em cerca de R$ 4 bilhões
• Participação de projetos movidos a biometano e carvão

Expansão de hidrelétricas também aparece no leilão

O leilão também incluiu projetos de ampliação de usinas hidrelétricas, algo que não ocorria em grande escala há alguns anos.

A Copel liderou esse segmento com 1,86 GW destinados à expansão das usinas Foz da Areia e Areia, no Paraná.

Outros projetos contratados incluem:

• Ampliação da usina Luiz Gonzaga, da Axia, com aumento de 246,6 MW e investimento estimado em R$ 1 bilhão
• Expansão da usina São Simão, da Spic Brasil, em 310 MW, com investimento superior a R$ 1 bilhão
• Ampliação da usina Jaguara, da Engie, em 232 MW, com investimento aproximado de R$ 1,2 bilhão 

Ambiente de expansão e desafios para o custo da energia

A realização do leilão ocorre em um momento de transição no planejamento da expansão do sistema elétrico brasileiro. O crescimento acelerado das fontes renováveis intermitentes, como solar e eólica, tem aumentado a necessidade de contratação de potência firme para garantir segurança operativa, especialmente nos períodos de baixa geração hidrológica e de menor disponibilidade dessas fontes.

Nesse contexto, os leilões de reserva de capacidade passam a ter papel central na confiabilidade do Sistema Interligado Nacional, mas também levantam discussões sobre o custo da expansão e a forma de alocação desses encargos entre os consumidores.

Parte dos agentes do mercado avalia que a contratação de grande volume em um único certame, combinada à baixa competição observada, pode pressionar encargos setoriais no médio prazo. Por outro lado, o governo sustenta que a contratação antecipada reduz riscos de déficit de potência e evita soluções emergenciais mais caras no futuro.

O resultado do leilão reforça a tendência de maior participação de usinas termelétricas na matriz de capacidade do país, ao mesmo tempo em que evidencia o desafio regulatório de equilibrar segurança energética, modicidade tarifária e previsibilidade para investidores e consumidores livres.


Fonte: Eixos


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