Mesmo com mudanças estruturais recentes no setor elétrico e promessas de modernização, a expectativa é de que a conta de luz fique mais cara para grande parte da população, com impactos desiguais entre regiões e perfis de consumo.

Especialistas apontam que muitas das novas regras aprovadas nos últimos anos ainda estão em fase de transição e explicam que os efeitos positivos dessas medidas tendem a aparecer apenas a partir de 2027. Até lá, o cenário é de pressão tarifária.

Alta média prevista e variações regionais

As projeções indicam que a tarifa residencial de energia elétrica deve registrar uma alta média de aproximadamente 5,4% em 2026. No entanto, esse percentual não será uniforme em todo o país.

Dependendo da distribuidora e da região, os reajustes podem variar significativamente. Enquanto algumas áreas podem ter reduções pontuais, outras devem enfrentar aumentos expressivos, que podem ultrapassar 30%. Essa diferença reforça a percepção de imprevisibilidade nas contas de luz ao longo do próximo ano.

Custos que seguem pressionando as tarifas

Apesar de os custos de geração e distribuição crescerem abaixo da inflação em 2026, outros componentes da tarifa continuam exercendo pressão relevante sobre o valor final pago pelo consumidor.

A tarifa de transmissão, por exemplo, deve registrar aumentos importantes neste ciclo. Em alguns casos, os reajustes médios podem chegar a 12%, refletindo os valores definidos para o período.

Além da transmissão, o setor lida com passivos regulatórios que podem sobrecarregar as tarifas nos próximos meses. Um dos temas mais sensíveis é o custo estimado entre R$ 3 bilhões e R$ 4 bilhões para indenizar geradores de fontes renováveis pelos chamados cortes de geração (curtailment). Esse valor refere-se a momentos em que as usinas foram impedidas de entregar energia por restrições na rede, e o rateio desse prejuízo é um dos fatores que elevam a pressão sobre a conta final do consumidor em 2026.

Subsídios e a Conta de Desenvolvimento Energético

Outro fator central na composição da conta de luz é o crescimento dos subsídios embutidos nas tarifas. A estimativa é que o orçamento da Conta de Desenvolvimento Energético alcance cerca de R$ 52,7 bilhões em 2026, com aproximadamente R$ 47,8 bilhões sendo pagos diretamente pelos consumidores por meio de encargos.

Mesmo com a aprovação de um teto para a CDE, essa limitação só passará a valer a partir de 2027. Para 2026, o orçamento representa um aumento em relação ao ano anterior, o que contribui para a pressão sobre as tarifas.

Algumas mudanças no rateio desses custos podem trazer alívio parcial para os consumidores residenciais, já que parte dos encargos passará a ser dividida com consumidores livres, como grandes indústrias. Ainda assim, o aumento geral não deve ser evitado.

Medidas sociais e alívios pontuais

Entre os fatores de alívio previstos para 2026 estão as medidas de caráter social. Famílias de baixa renda contam com isenção do pagamento da CDE nos primeiros 120 quilowatts-hora consumidos mensalmente, o que pode representar uma redução média de cerca de 11% na conta, considerando o consumo residencial típico.

Também existem expectativas em relação à repactuação de parcelas vinculadas aos royalties de hidrelétricas, valores cobrados pelo uso econômico dos recursos hídricos, especialmente para distribuidoras que atuam em áreas atendidas pela Sudene e pela Sudam. No entanto, esses efeitos ainda dependem de regulamentação e da adesão efetiva das geradoras, o que torna o impacto incerto para 2026.

Principais fatores apontados pelo setor para a alta em 2026

Entre os principais fatores que ajudam a explicar o cenário previsto para 2026 estão:

  • Crescimento dos encargos do sistema elétrico.
  • Reajustes relevantes nos custos de transmissão.
  • Aumento do volume de subsídios incorporados às tarifas.
  • Despesas que ainda não foram totalmente redistribuídas entre consumidores regulados e livres.

O cenário energético para 2026 desenha um Brasil de contrastes: por um lado, avanços na modernização e sinais de preços mais eficientes no futuro; por outro, uma pressão tarifária imediata alimentada por subsídios e gargalos de infraestrutura. Para o consumidor, a principal lição é que a passividade diante da conta de luz terá um custo cada vez mais elevado.

O resultado dessa transição reforça a necessidade de uma gestão de energia profissional e proativa. As regras estão caminhando para um modelo de maior eficiência, mas os benefícios reais só serão capturados por organizações que souberem navegar entre as oportunidades regulatórias e as janelas de contratação competitiva.

Fonte: Valor Econômico Globo

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