A conta de luz de outubro chegou sem cobrança adicional. A ANEEL acionou a bandeira verde para o mês e encerrou um ciclo de cinco meses de bandeira amarela, que acrescentava R$ 1,88 a cada 100 kWh consumidos. Pela estimativa da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), a redução média na conta fica em torno de 2% em relação a setembro.

O alívio tem explicação hídrica. Segundo o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE), o Sistema Interligado Nacional (SIN) terminou o período seco com 61% de armazenamento ao final de setembro de 2026, acima dos 56% registrados no mesmo período de 2025, mesmo sob influência do El Niño. Para a empresa que depende de energia para produzir, a pergunta que importa é outra: por quanto tempo esse cenário se sustenta e como usar esse momento para planejar.

Por que a bandeira tarifária voltou a ser verde em outubro?

A bandeira voltou a ser verde porque os reservatórios das hidrelétricas chegaram ao fim do período seco em nível confortável, no momento em que o período úmido começa no Sudeste e no Centro-Oeste. Com mais água armazenada, o sistema precisa menos do apoio das termelétricas, que têm custo de geração mais alto e pesam no acionamento das bandeiras amarela e vermelha.

Hoje, todos os subsistemas do SIN estão acima de 50% de armazenamento:

  • Sudeste/Centro-Oeste: 56,03%
  • Sul: 80,90%
  • Nordeste: 67,3%
  • Norte: 70,41%

O número que mais pesa é o do Sudeste/Centro-Oeste, região que responde por cerca de 70% da capacidade de geração hídrica do país.

Como estão os principais reservatórios do Sudeste e do Centro-Oeste?

Os três maiores reservatórios do subsistema começam o período chuvoso em níveis distintos, o que mostra que a recuperação não é uniforme. Furnas, que representa 17,12% da energia armazenável da região, está com 61,99%. Serra da Mesa, com peso de 17,24%, está com 46,42%. Emborcação, que responde por 10,69%, está com 55,33%.

Na prática, o ponto de partida é bom, mas ainda depende de as chuvas do novo ciclo úmido manterem um ritmo regular para que esse nível se consolide.

A bandeira verde deve durar até quando?

Não há data definida: a bandeira é decidida mês a mês pela ANEEL e depende do comportamento das chuvas. Se o período úmido mantiver um bom volume, avaliações de mercado apontam a possibilidade de a bandeira verde seguir até o primeiro trimestre de 2027. É uma possibilidade, não uma garantia.

O próprio Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) trabalha com cenários menos favoráveis. Para os próximos seis meses, em uma combinação de demanda mais alta e hidrologia desfavorável, o planejamento prevê o uso complementar de termelétricas, a operação das hidrelétricas do rio São Francisco e o uso do reservatório de Itaipu, além da Reserva de Potência Operativa em novembro e a partir de janeiro de 2027. A Fiemg também recomenda acompanhar de perto a transição para o período chuvoso, pelos possíveis reflexos do El Niño no último trimestre do ano.

O que a bandeira verde muda, na prática, na conta da empresa?

A bandeira verde elimina a cobrança adicional do sistema de bandeiras, mas não reduz o preço da energia consumida nem os demais componentes da conta. Tarifa de energia, tarifa de uso da rede de distribuição, encargos e tributos continuam sendo cobrados normalmente, e o reajuste anual da distribuidora segue seu próprio calendário.

Por isso, a bandeira verde é um alívio de curto prazo, e não uma mudança estrutural. A cor pode mudar no mês seguinte, e é justamente essa oscilação que dificulta o planejamento de quem tem a energia como custo relevante no orçamento.

Reservatórios em bom nível são um bom momento para avaliar o mercado livre?

Podem ser um bom momento para planejar com calma, sem a pressão de uma conta em alta. No mercado livre de energia, a empresa contrata a energia diretamente, com preço, prazo e condições definidos em contrato, e essa parcela não está sujeita ao sistema de bandeiras tarifárias, que se aplica ao mercado cativo. A tarifa de uso da rede continua sendo paga à distribuidora.

Isso não significa que o mercado livre reduza custos em qualquer situação. O resultado depende do perfil de consumo, da estrutura do contrato e do momento da contratação. Períodos de hidrologia favorável costumam aliviar a pressão sobre os preços de energia, mas o comportamento futuro depende de chuva, demanda e despacho termelétrico. O que a contratação bem estruturada oferece é previsibilidade: um custo de energia que a empresa consegue planejar, em vez de acompanhar a cor da bandeira mês a mês.

Que sinais o setor elétrico ainda monitora?

Além da hidrologia, o CMSE acompanha a expansão do sistema e a saúde financeira do mercado. Em setembro, entraram em operação 331 MW de nova capacidade de geração centralizada e 547 km de linhas de transmissão, e a ANEEL apresentou um cronograma para aprimorar os mecanismos de resposta da demanda.

No mercado de curto prazo, a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) informou que, dos R$ 2,27 bilhões previstos na liquidação referente a agosto, R$ 1,8 bilhão foi liquidado e R$ 476,21 milhões não foram pagos. Para quem contrata energia, é um lembrete de que a solidez da contraparte, sua governança e sua gestão de risco fazem parte da decisão, ao lado do preço.

Fontes